Espingarda

Todos falavam sobre a habilidade do garoto - e não sem razão. Era coisa de outro mundo o que ele fazia com os pés. Era algo incrível e parecia incomparável a qualquer outro antecessor. Apesar das pernas tortas, ele era rápido, tinha força, um gingado e uma malandragem que não negavam a brasilidade.

Desde muito cedo, ele havia aprendido que o mundo ao seu redor não perdoava falhas. Criado em um ambiente onde o erro era sinônimo de punição severa, ele desenvolveu uma determinação feroz para ser impecável em tudo que fazia. A sua pequena figura escondia uma resiliência descomunal, algo forjado no calor das expectativas esmagadoras e da dura realidade que vivia.

O teste de fogo veio em um dia comum, mas para ele, era o dia decisivo. O chão recém-limpo brilhava sob a luz da manhã, e a pá de lixo estava ali, desafiante, esperando para ser manuseada. Com o pé direito, ele a segurou com a destreza que todos admiravam. Seus olhos estavam fixos, cada músculo em tensão, buscando a perfeição.

Mas o destino, cruel e indiferente, decidiu jogar seu jogo. Um segundo de distração foi suficiente: a pá de lixo virou e jogou todo o conteúdo à sala, sujando o trabalho árduo de limpeza anterior, exatamente o que precisava ser evitado. O coração do garoto afundou, e o eco do silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Ele sabia o que vinha a seguir; os gritos, a fúria, a certeza de que ele não era apenas um fracasso, mas uma decepção.

Sem outra opção visível - para uma mente já perturbada - , o garoto se dirigiu ao armário de madeira no canto do quarto. Lá, coberta de poeira e de histórias sombiras, estava a espingarda do pai. O metal frio parecia pulsar com uma vida própria enquanto ele a segurava. Em sua mente, o erro de segundos atrás era uma sentença inescapável, um peso insuportável em um mundo que não permitia deslizes - ao menos na  doente cabeça.

Com lágrimas nos olhos, ele colocou a espingarda contra a própria testa. Aquele era um gesto de desespero, mas também de rendição - e de certo modo, de alívio. Naquele ambiente hostil, onde a perfeição - na visão dele - era a única saída, ele escolheu a única solução que via. E assim, com um estrondo seco, a história do garoto talentoso e (auto-)pressionado terminou, deixando para trás um eco de tristeza e um questionamento sobre um mundo que pode ser implacável com os seus próprios.

Comentários

Postagens mais visitadas