Uma viagem ao passado

Em uma noite como qualquer outra, um sonho me transportou por um portal espiritual inusitado, não pelos céus ou por dimensões desconhecidas, mas por um toboágua que circundava entre as estrelas e nuvens, um corredor aquático que me conduziu não a um destino geográfico, mas temporal. Ao fim dessa jornada, emergi no ano de 1987, carregando comigo a maturidade dos meus 39 anos, em um tempo que parecia familiar e ao mesmo tempo repleto de mistérios não revelados.

O ano de 1987 reservava para mim uma surpresa peculiar: era o ano em que minha irmã, Mônica, deveria estar a caminho, marcando o calendário familiar com sua chegada. Porém, para minha surpresa, não havia sinal de sua existência iminente. Minha mãe não estava grávida, e o nome de Mônica nem sequer era citado por qualquer pessoa em qualquer conversa, o que me causou estranhamento, mas não suficiente para eu deixar de aproveitar aquele momento no qual estava presenciando de forma única minha própria vida do passado com a experiência e conhecimentos do presente. Estava simplesmente maravilhado. Era fantástico.

Nesse cenário alternativo de 1987, encontrei minha tia Lourdes, uma figura querida cuja partida neste mundo eu já havia lamentado. Lá estava ela, radiante como nunca, adornada com cabelos que me lembravam os de Elke Maravilha, em uma explosão de cores e formas que desafiavam a monotonia do cotidiano. Sua presença, uma ponte para as memórias mais queridas, trouxe-me um conforto indescritível, como se - naquele momento - o tempo nos permitisse um reencontro além das fronteiras da vida e da morte.

Logo depois, minha jornada pelo passado me levou até minha mãe, em um vislumbre de sua juventude que eu nunca havia testemunhado. Ela estava lá, engajada em um exercício físico, com uma vitalidade que iluminava seu entorno. Ver minha mãe assim, tão jovem e cheia de vida, foi como redescobrir um capítulo inédito de uma história que eu pensava conhecer de cor.

O encontro seguinte foi com meu pai, assim como minha tia Lourdes, já falecido, que apareceu diante de mim em uma cena que misturava o cotidiano com o inesperado. Magro, com o corpo adornado por espuma de sabonete, trajava apenas um short curto e vermelho, enquanto manejava um barbeador. Esse vislumbre de um momento tão peculiar, mas profundamente humano, fez meu coração se aquecer com a lembrança de sua presença, trazendo à tona a saudade e a alegria de nossos dias compartilhados. Eu estava louco para falar que estava voltando do futuro, mas não podia. Não conseguia. Enttão continuiu curtindo o momento.

Nossa conversa fluiu como se o tempo não tivesse passado, ou melhor, como se ele tivesse dobrado sobre si mesmo para nos permitir aquele encontro. Falamos muito, e embora eu carregasse comigo o conhecimento do que o destino reservava para cada um deles - naquele instante - estávamos todos juntos, imunes às dores e perdas que o tempo infelizmente nos proporcionaria.

Esse sonho, mais do que uma simples viagem ao passado, foi uma celebração da vida e dos laços que nos unem, mesmo diante da inexorabilidade do tempo. Ao retornar ao meu presente, carreguei comigo não apenas as memórias daquelas interações, mas a certeza de que, de alguma forma, o amor transcende as barreiras do tempo e do espaço, permitindo-nos encontrar conforto, alegria e significado nas conexões que perduram para além do visível.

Hoje, ao contrário de outrora, nutro a crença de que esse reencontro, bordado de novas e antigas esperanças, ainda há de acontecer no tecido do destino. Ignoro se será sempre nos domínios etéreos dos sonhos, mas, se esse for o caminho, que ele se desdobre em uma jornada de alegria e revelações, desvendando verdades que julgava conhecer, mas que, na verdade, aguardavam ser redescobertas sob uma nova perspectiva.

Nova perspectiva que foi apenas um sonho, mas muito melhor que boa parte da minha medíocre vida.

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