Arpejo.

Hoje eu saí "só" - sozinho mesmo - pra almoçar, como quem não pede nada ao dia além de um prato honesto e a chance de voltar inteiro. Durante décadas eu tive esse hábito e meu companheiro dessas horas sempre foi o álcool. Mais a frente farei um aparte sobre isso.

Entrei no restaurante, o porão para os mais íntimos, barão para os menos, e pedi charque - daqueles que parece que passaram pupunha como tempero de tão gorduroso e saboroso que vem- e, do lado, um açaí grosso, escuro, sem cerimônia, como deve ser. E, claro, com farinha "baguda". Enquanto eu mastigava, parecia que o mundo tinha abaixado o volume só um pouquinho, o suficiente pra eu ouvir meu próprio silêncio por dentro. O estranho é que eu estava bem com isso. Eu, que costumo implicar com meus pensamentos, como se eles fossem gente inconveniente sentando sem convite, ali o deixei se multiplicarem. Pela primeira vez em muito tempo, eu não precisei brigar com o que eu sentia, um prazer enorme em estar só, mesmo rodeado por tantos humanos.

O aparte referencciado no início: a bebida sempre foi um catalizador e tanto neste quesito e, como uma criança que aprende a andar, esforço-me para reaprender a gostar de socializar. Ou ao menos fingir isso. É difícil e foram décadas em que meu cérebro foi ludibriado por esse estratagema.

Voltemos: quando terminei de almoçar, a tarde estava chuvosa, daquele jeito que não desaba, mas insiste: água miúda, fininha, mas persistente, que molha a cidade devagar e deixa no ar o cheiro bom de atmosfera úmida, como se o chão respirasse o segredo de cada um que ousasse pisa-lo em espelhos naturais de água acumulados pelas ruas. Vi crianças saindo da escola em bandos, com mochilas saltando nas costas e risadas escapando dos inocentes rostos. Os adultos passavam apressados, olhando o relógio como quem tenta empurrar o tempo na contramão com os olhos; buzinas riscavam o ar, impacientes, e - naquele momento - Belém parecia uma grande máquina funcionando no modo “urgência”. E eu, no meio disso, fiquei parado por dentro, contemplando o nada (ou o tudo?). Aquilo definitivamente não era comum - eu quase nunca gosto dos meus pensamentos, quase nunca deixo eles me levarem pela mão. Mas por algum motivo que eu não sei explicar, não foi incômodo: foi só vida acontecendo, e eu finalmente dentro dela, sem pressa de escapar. Finalmente!(?)

Talvez eu esteja aprendendo a lidar com algumas situações sem álcool. Ou talvez seja o Arpejo.

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